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Joanna Newsom – Have One On Me (2010)

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A duas horas de tour de force de Have One On Me (Drag City, 2010) foi justificada não por uma ampla paleta estilística, mas por um aprofundamento de sua própria psique.  A contribuição de Newsom é a rica tradição da introspectiva fêmea “singer-songwriters” com a rica tradição da canção avant-garde. Ela oferece meditação mergulhando na indiferença profunda de Joni Mitchell, segue os passos de Lisa Germano e Kate Bush na rima infantil e tem propriedade de música renascentista austera e até de ópera. Se existe uma definição para o trabalho realizado por Newsom certamente é a de “psych folk” com seus lentos andamentos, psicologia confusa e abatida e grande trabalho vocal. Cansativo, embora recompensador, temos aqui o mais alto patamar musical alcançado por um artista de nosso tempo.

A alma do álbum se concentra nas canções compridas e psicologicamente abaladas: os 11 minutos de Have One On Me é um exercício de criação e dissolução do caos, do modo que começa tranquilamente na veia de música de câmara neoclássico e do cool jazz, mas lentamente vai se acumulando, amplificando a efervescência e multi voz com o som avant-garde de fundo. Good Intentions Paving Company é boa para tocar nas rádios e explora um ritmo mais harmonioso com sua voz trêmula, funciona quase como uma brincadeira. Baby Birch com seus acordes crescentes que culminam numa espécie de tradição chinesa acompanhado estilosamente por uma guitarra distorcida ao fundo, In California que se transfigura numa mutação trágica cheia de lamentações, Esme é mais expansiva e rápida, ancorando-se a uma forte melodia e assemelhando-se a uma fantasia. Ribbon Bows  funciona em torno de outra melodia emocionante, transformando o popular em operístico. O álbum termina com o sentimento espiritual ao piano desencadeado por Does Not Suffice, momento onde tudo se desintegra e se assemelha a um conto de fadas.

Obs: recomendo escutar o álbum em três partes (aproximadamente 35 mim cada uma) e descansar pelo menos 10mim entre cada parcela, assim fica mais fácil aproveitar o profundo impacto emocional das longas canções.

Guilherme Rodrigues

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Third Ear Band – Third Ear Band (1970)

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Nenhuma banda da década de 1960 e 1970 alcançou o grau de fusão étnico que a banda Third Ear alcançou. Aqui a música está mais perto do Budismo e da meditação do que à composição ocidental. A Banda Third Ear também não foi a primeira a compor um disco inteiro onde a música oriental derrete-se na música ocidental (pelo menos Paul Butterfield já havia feito com seu East West, 1966), mas os seus membros foram os que fizeram a luz de espírito hippie/ psicodélico, ou com uma ruptura radical dos estereótipos da música popular (blues, jazz, rock). Seu principal mérito foi a utilização desses elementos de inspiração para inventar uma nova linguagem que aspirava a ser universal (e não apenas uma colagem de idiomas). Sua grande importância é exatamente a de cancelar a hipocrisia codificada e esquemática da maior parte da música ocidental, e dentro do seu estilo, mergulhar numa profusão de ritmos e tons tornando a música um veículo para a meditação e oração.

A Banda Third Ear nasceu em 1967 no meio psicodélico UFO Club, inicialmente sob o nome Giant Sun Trolley, e depois Hydrogen Jukebox. A equipe permanente era composta de tablas (Glen Sweeney), oboé (Paul Minns), viola (Richard Coff) e Violoncelo (Mel Davis). Esta formação anormal foi o produto sugestivo de uma cultura hippie que tinha descoberto a espiritualidade oriental e buscou novos meios de expressão. A música da banda se originou a partir de um conceito esotérico de mundo e foi concebida como uma tentativa de descobrir o significado do universo de voltar às raízes da experiência humana e, portanto, as mais antigas civilizações. Misticismo oculto e folclore exótico, a alquimia de civilizações distantes no espaço e no tempo, a magia cerimonial e etc.

Third Ear Band (Harvest, 1970 – Gottdiscs, 2005) é o segundo álbum e uma das grandes obras-primas do rock psicodélico/ progressivo, e vai ainda em mais escala para o aspecto “étnico” fornecendo um caráter ainda mais “abstrato” às composições, que de fato parecem pertencer mais à música de câmara à música popular, e mais ao jazz do que ao rock. As quatro suítes do disco (dedicado aos quatro elementos da filosofia grega antiga) são um conjunto de plena formulação: os seus trabalhos espirituais eliminam a ingenuidade e traçam um caminho tortuoso através de um som vanguardista e primitivismo. A qualidade de Air é etérea e descoordenada e Water é igualmente abstrata e inconclusiva, embora desta vez as improvisações sejam capazes de provocar reflexões vibrantes. Fire torna-se um período sabático de ruído caótico e contínuo. Earth talvez seja a peça mais marcial e agressiva, toma emprestado de uma progressão cigana de dança folclórica rodando com instrumentos de corda que voam em todos os crescendos com o oboé e a viola de modo que o resultado final pode facilmente ser comparado a alguma evocação espiritual.

Guilherme Rodrigues

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