Arquivo da tag: 1971

NEU! – NEU! (1971)

Image

Formado pelo guitarrista Michael Rother e pelo percussionista Klaus Dinger, já dois veteranos do Kraftwerk, Neu! foi uma banda que levou ao limite a técnica de iterativos padrões e da abordagem impressionista para o rock. Muitas peças são compostas como contínuos impulsos rítmicos e pela repetição obsessiva de ferozes tonalidades (ocasionalmente com algum tipo de ruído) com destaque para a percussão tribal aplicada à neurose devastadora do mundo industrial. Apesar de poucos álbuns, o legado de NEU! como banda para o rock mundial permanece, acima de tudo, acerca de um dos maiores manifestos sobre a liberdade de criação no mundo da música.

Neu! (Brain, 1972), seu primeiro álbum, foi produzido, assim como o próximo, NEU! 2, por Conrad Plank (a mesma pessoa que produziu o primeiro disco de Kraftwerk). Ele trouxe ao rock conceitos como a base dos impulsos rítmicos ferozes aplicados às canções. Na prática, funciona como uma espécie de ritual, a desconstrução do som pela batida favorece o surgimento de pequenos detalhes ao longo das faixas. O método é utilizado para esboçar a neurose de cada peça. Combinando o tribalismo “dark” do Kraftwerk e do futurismo romântico de Popol Vuh, temos um hiper-realismo e uma intensidade angustiante que por vezes lembra uma sensação de sufoco e claustrofobia. O álbum é puramente instrumental e contém somente seis suites. A guitarra reservada e tímida com um lento pulso de Weissensee, o som de música absurdo que é Sonderangebot num exercício de ruído ou vazio cósmico, e Honig Lieber que é plenamente um ensaio sem voz criado à mão em um ambiente igualmente assustador de sons aleatórios. A cereja do bolo fica por conta do supersônico Hallogallo, uma paisagem sonora percussiva puramente de baterias eletrônicas e guitarras, uma atmosfera perturbada por acordes de minimalismo e barulho cacofônicos. Os dez minutos de Negativland contêm uma mistura de expressionismo e tribalismos demoníacos, antecedendo o heavy metal, sendo uma orgia para os maus instintos e por fim um turbilhão de ruídos psicodélicos (britadeiras, distorções de guitarras furiosas).

Só resta afirmar que se trata de uma obra-prima austera e hipnótica, possui a tradição germânica (a do gótico desesperada) e combinada a tensões psicológicas dos tempos modernos. Com este registro, Neu! inventou o “beat motorik”, uma batida propulsiva de ritmo constante, que transforma a angústia dos artistas em um transe sonoro.

Guilherme Rodrigues

Continuar lendo

Deixe um comentário

Arquivado em Resenha