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Nico – Desertshore (1970)

Nico - Desertshore (1970)

Alemã e cantora Nico, que participou com o Velvet Underground em Nova Iorque, antes de voltar para a Europa, inventou um estilo de cantar que tem pouco a ver com a música rock, um estilo que pertence a nenhum lugar em particular e nenhum momento particular, um estilo que poderia ser bem descrito como medieval ou romântico, como indiano ou do Oriente Médio, um estilo que é, principalmente, “enunciação”. É um estilo que parece por réquiens como o coro grego, monólogos de Shakespeare, salmos Gregorianos, música de câmara ou canto exótico. Suas ladainhas lúgubres (que inventou o rock gótico mais por acidente do que por projeto) oscila entre o lamento de um enterrado vivo e a invocação imponente de uma sacerdotisa. A encenação desses gritos e citações fúnebres de metafísica alegoria de Goethe, do teatro épico de Brecht, do cinema noir francês ou americano, ou até a partir de pinturas surrealistas de Dali. Ela montou a linha entre a aristocrática e prostituta com a elegância de um fantasma.

Sua segunda obra-prima, e um dos maiores álbuns de todos os tempos, DesertShore (1970), foi ainda mais longe, lembrando a desolação de um universo gelado e vazio, como se depois de uma catástrofe colossal. Doses mais fortes de neurose urbana deprimida ainda mais pela sua voz, mas também capaz de elevar o tom xamânico/ profético para outra dimensão. O sentido do antigo tornou-se mais do que um cheiro de morte: um cheiro de outro mundo. As anêmicas e moribundas atmosferas, o suspense, escrita pela harmoniosa viola de Cale pertencia a uma catacumba. Até agora, era mais do que o fatalismo: era angústia eterna. Foi o medo, tanto sombria e majestosa, levando a uma paralisia mental que era ao mesmo tempo infantil e cósmica. Cada canção foi um enigma, e a cantora uma esfinge. Mas ela também era uma exploradora, embora uma exploradora do mundo interior. Cada vértice da voz de Nico petrificava vagarosamente pelo labirinto da mente, passava por paisagens interiores de pesadelos, visões e sombras. Ou melhor, Nico vivia em outro planeta, e somente ficou cantando sobre o apocalipse do planeta Terra vendo tudo lá de cima.

Desertshore (1970) é atormentado por um profundo senso de mistério e angústia, seus sussurros de dúvida, suas canções de ninar como uma criança,  parece haver rumores de um doente constantemente absorto em uma paralisia mental, o que dá ao álbum uma natureza obsessivo estática. Comovente e imanente, a música gruda na instrumentação para digitalizar um ritmo impressionante que é mais que apenas ritmo, é o fluxo de consciência, e para além disso, assobios e clangs que despertam pesadelos cósmicos. Desde Janitor Of Lunacy o tom do disco parece o mais solene registro de Nico, mais firme e seguro, capaz de levar a reflexões mais proféticas. A combinação da harmoniosa e eclesiástica instrumentação de Nico cantando e Cale no órgão minimalista nesta canção é a forma instrumental mais essencial de seu desempenho. Em The Falconer, o órgão majestoso e hipnótico, poderoso e ameaçador são contraponto do piano do classicismo que marca o efeito rarefeito e o poder sobrenatural da canção; a tensão que é temperada, no entanto, em um dos raros lampejos de serenidade quando Cale ataca uma sonata romântica no piano e Nico canta uma de suas rimas. Rimas apenas doces como este e o truque mais efetivo do seu horror existencial são: My Only Child, coro religioso com momentos de silêncio para marcar o ritmo, e Le Petit Chevalier, uma criança que canta em francês durante um minuto com um único cravo de acompanhamento. Em que estado de delírio pode trazer esta prática que é demonstrada pelo final, mais uma vez, no grotesco e apocalíptico, All That Is My Own, onde cruza um absurdo recitativo e um hino muito alto, tão puro como demoníaco, ao som de gongos, de violas indianas, teclados minimalistas, trombetas da Renascença, movimentos de dança medievais.

Todas as músicas participam do mesmo desânimo/ tormento: uma criança milenar brinca com a vida e com a morte, e canta refrões antigos de civilizações extintas. Circe (na mitologia grega uma feiticeira especializada em venenos) está prisioneira em uma ilha deserta ou Electra (outra figura da mitologia grega, foi quem salvou Orestes de ser morto enquanto ainda era criança) alaga em seu próprio fosso. Mais melódico, Desertshore foca na petrificada e lunar figura de Nico, o quanto ele pode ser da paixão da alma ou da teatralidade da obra. Há algo sobrenatural de uma forma isolada, é como se Nico observou há milhares de anos a tragédia humana e tentasse transmitir ao público a dor lá do outro planeta. A música de Nico é dificilmente comparável a outras manifestações do rock. Suas canções, cantadas num registro “inferior”, estranha e assexuada, não pertence a este lugar.

Guilherme Rodrigues

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Third Ear Band – Third Ear Band (1970)

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Nenhuma banda da década de 1960 e 1970 alcançou o grau de fusão étnico que a banda Third Ear alcançou. Aqui a música está mais perto do Budismo e da meditação do que à composição ocidental. A Banda Third Ear também não foi a primeira a compor um disco inteiro onde a música oriental derrete-se na música ocidental (pelo menos Paul Butterfield já havia feito com seu East West, 1966), mas os seus membros foram os que fizeram a luz de espírito hippie/ psicodélico, ou com uma ruptura radical dos estereótipos da música popular (blues, jazz, rock). Seu principal mérito foi a utilização desses elementos de inspiração para inventar uma nova linguagem que aspirava a ser universal (e não apenas uma colagem de idiomas). Sua grande importância é exatamente a de cancelar a hipocrisia codificada e esquemática da maior parte da música ocidental, e dentro do seu estilo, mergulhar numa profusão de ritmos e tons tornando a música um veículo para a meditação e oração.

A Banda Third Ear nasceu em 1967 no meio psicodélico UFO Club, inicialmente sob o nome Giant Sun Trolley, e depois Hydrogen Jukebox. A equipe permanente era composta de tablas (Glen Sweeney), oboé (Paul Minns), viola (Richard Coff) e Violoncelo (Mel Davis). Esta formação anormal foi o produto sugestivo de uma cultura hippie que tinha descoberto a espiritualidade oriental e buscou novos meios de expressão. A música da banda se originou a partir de um conceito esotérico de mundo e foi concebida como uma tentativa de descobrir o significado do universo de voltar às raízes da experiência humana e, portanto, as mais antigas civilizações. Misticismo oculto e folclore exótico, a alquimia de civilizações distantes no espaço e no tempo, a magia cerimonial e etc.

Third Ear Band (Harvest, 1970 – Gottdiscs, 2005) é o segundo álbum e uma das grandes obras-primas do rock psicodélico/ progressivo, e vai ainda em mais escala para o aspecto “étnico” fornecendo um caráter ainda mais “abstrato” às composições, que de fato parecem pertencer mais à música de câmara à música popular, e mais ao jazz do que ao rock. As quatro suítes do disco (dedicado aos quatro elementos da filosofia grega antiga) são um conjunto de plena formulação: os seus trabalhos espirituais eliminam a ingenuidade e traçam um caminho tortuoso através de um som vanguardista e primitivismo. A qualidade de Air é etérea e descoordenada e Water é igualmente abstrata e inconclusiva, embora desta vez as improvisações sejam capazes de provocar reflexões vibrantes. Fire torna-se um período sabático de ruído caótico e contínuo. Earth talvez seja a peça mais marcial e agressiva, toma emprestado de uma progressão cigana de dança folclórica rodando com instrumentos de corda que voam em todos os crescendos com o oboé e a viola de modo que o resultado final pode facilmente ser comparado a alguma evocação espiritual.

Guilherme Rodrigues

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Mountain – Climbing! (1970)

Mountainclimbing

Moutain foi a banda de Rock Psicodélico que lançou a clássica faixa “Mississippi Queen”. É praticamente um hino do gênero ao qual pertence, e não conhecê-lo é um completo atestado de que o sujeito precisa conhecer um pouco mais a vida. Por outro lado, é espantoso saber que o grupo nunca teve um grande público; hoje, contenta-se com a fama de “Cult”, ao lado de coisas lindas como o Velvet Underground.

O seu debut, o álbum Climbing!, já começa nos fazendo formar um largo sorriso de orelha à orelha: a tão famosa faixa nos dá as boas-vindas. Mas o bom é sair da zona de conforto e ouvir o disco até o final; e acreditem: é impossível abandoná-lo – o disco nos abandona sozinho, alimentando a nossa vontade por mais. O que encontramos ao longo da execução é um punhado de ideias chapadas, utilizando instrumentos tão caros ao universo caótico do Rock para justamente formar um ambiente de sossego. Não por acaso, o grupo tocou no Festival de Woodstock; os hippies certamente “viajaram” muito ao som apresentado aqui, dotado de marcantes vocais crus/linhas de guitarra de Leslie West que são posto(a)s em primeiro plano, acompanhados quase de forma onírica (talvez o principal motivo de tamanha “viajem” proporcionada pelo som) pelo baixo de Felix Pappalardi (que foi produtor do grande Cream) e pela bateria de Corky Laing.

A banda perfeita para cair nas graças da mídia, ao lado do Led Zeppelin e cia? Poderia ser – mas nunca foi. Mas o tempo até que foi justo de deu a esta um espaço na história da música.

Victor Ramos

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