Arquivo do autor:Victor Ramos

Sobre Victor Ramos

Alguém jovem que já tem anos escrevendo sobre o Cinema. O seu principal projeto é o Injeção Cinéfila, mas também faz parte da equipe do Ornitorrinco Cinéfilo e administra o blog Musical Militia - um blog sobre a Música. Ah, e também tem o blog pessoal Estrada do Sul.

Sodom – Obsessed by Cruelty (1986)

Obsessed+by+Cruelty

 

Sodom foi a banda que me fez ter contato com o Thrash Metal alemão, tenho ótimas lembranças relacionadas a essa incrível banda. Falando nisso, me lembro que acreditava que In The Sign of Evil (o famoso e lendário EP, diga-se de passagem) tinha sido lançado após o primeiro álbum da banda. Isso porque jamais imaginaria que Obsessed by Cruelty poderia sair após o que foi feito em In The Sign of Evil. Calma, eu explico: normalmente as bandas buscam evoluir tecnicamente, a cada lançamento, suas qualificações sonoras, e desse modo construí uma pequena suposição de que In The Sign of Evil era limpo demais para ser lançado antes do Obsessed by Cruelty. Obsessed by Cruelty tem cara de sujeira; é um assassino que toma banho de sangue e vai dormir assim. Só que a surpresa veio com o tempo, a velha questão de “mais cedo ou mais tarde” (poderia ter sido mais cedo, mas como sou mané deixa para lá): Obsessed by Cruelty veio depois, obviamente.

A coisa aqui é linda, uma porradaria linda. Se a própria sonoridade do Sodom não deixa espaço para ouvidos de manteiga, em Obsessed by Cruelty encontramos o ápice desse conceito. O álbum é Black Metal, verdade seja dita. É um Black Metal da primeira onda, algo que por si só garante a ele características de Thrash e de Death Metal. Continuar lendo

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Candlemass – Epicus Doomicus Metallicus (1986)

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Não é por acaso que Candlemass é a mais famosa banda de Doom Metal, subgênero tão rico e subestimado que nasceu pelas mãos do Black Sabbath. Oras, Candlemass evoluiu o aprendizado que recebeu principalmente do Black Sabbath; eles lapidaram e transformaram o Doom Metal no subgênero que ele é hoje, e não simplesmente repetindo os embriões que o Sabbath tinha liberado, como muitas bandas o fizeram – e ainda o fazem.

Epicus Doomicus Metallicus é incrível, pois é um debut e, facilmente, um dos melhores álbuns de Metal já produzidos na história da música; em suma: uma obra-prima. A peculiaridade abre o disco e podemos ter a clara noção da grandiosidade do Candlemass como banda com a faixa – maravilhosa, por sinal – Solitude. É possível sentir o peso, a melodia de funeral, mas nunca o tédio; muito pelo contrário: a fascinação pela obscuridade que toma o clima. E Solitude na verdade abre as portas para o que o álbum será dali em diante.

Os integrantes são ótimos em suas devidas tarefas. Os vocais de Johann Langquist são um atrativo à parte, com uma versatilidade invejável que compõe uma incrível performance nos quarenta minutos de Epicus Doomicus Metallicus; assim como as guitarras, a bateria (que irei discutir em breve) e o baixo, eles transmitem dor e uma fúria sufocada. A trilha sonora perfeita para qualquer filme de horror.

A bateria, outro atrativo à parte, mostra que não está ali para simplesmente acompanhar o choro dos outros instrumentos: ela tem vida própria e, de forma surpreendente para os que estão acostumados com o Doom Metal mais arrastado, rápida – o pedal duplo é utilizado, por exemplo. Mostra que, para um clima de ansiedade, não é necessário caminhar a passos extremamente lentos, e muito menos de que o Doom Metal é feito disso; o segredo real está na forma materializada da música, onde todos os instrumentos se casam e soam como uma sinfonia de desespero e não menos divertida.

Sólido. Todas as faixas merecem crédito.

Victor Ramos

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Mercyful Fate – Melissa (1983)

Melissa

Quem leu meu texto para Don’t Break the Oath pode ter imaginado que não simpatizo com o som do Mercyful Fate. Isso não é verdade. O texto poderia ter recebido mais alguns parágrafos, mas optei por ser direto em minha visão e isso resultou em uma avaliação curta e grossa – algo que provavelmente não é visto com bons olhos pelos apreciadores da banda.

Mas enfim, agora vos falo a respeito de Melissa, e a reação é positiva. Sim, Melissa é um ótimo álbum e não cansa, o oposto de Don’t Break the Oath (que é muito irregular), que o sucedeu. Enquanto Don’t Break the Oath soa mais como um King Diamond reinando em cima dos outros integrantes (praticamente um trabalho solo – mas sem banda de apoio), Melissa tem o diferencial de soar como uma genuína banda, em que todos os integrantes recebem o seu devido espaço.

Acasalando tudo de forma sóbria, o efeito é claro: o horror. O horror na música, claro. E a banda tem êxito aqui, com o principal destaque os sempre impressionantes vocais de King Diamond, que mais soam como um elemento instrumental (como todo vocal deve funcionar) que como a massagem de ego de Don’t Break the Oath.

As influências da NWOBHM são mais evidentes que nunca (o tom melódico das guitarras aliado ao contrabaixo que acolchoa a agulhada), inclusive na própria performance de King Diamond. Em meu conceito, o primeiro álbum é o melhor da banda, e este, claro, é Melissa.

Victor Ramos

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Black Sabbath – 13 (2013)

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Ok, vamos lá: “13” é um álbum incrível.

Não se surpreenda caso o veja constantemente nessas costumeiras listas de melhores do ano; e não digo isso por ser simplesmente Black Sabbath (até mesmo porque, por mais que seja uma das maiores bandas de todos os tempos, tem alguns pontos negativos em sua longa discografia), mas sim por ser, realmente, um disco incrível. É como se a brilhante fase de Ozzy nunca tivesse tido um fim, sendo este disco mais um belo componente desta; portanto, não seria exagero dizer que o trabalho com certeza está entre os clássicos da fase inicial.

Não tem sequer uma faixa ruim; existem as “menos boas”, estas que servem apenas para manter a boa qualidade, mas que também impedem voos mais altos – porém, sem comprometer o ótimo resultado final.

A faixa “End Of Beginning” nos dá as boas-vindas de forma brilhante, abrindo com um peso sombrio que remete à primeira faixa do debut da banda (principal responsável pela criação do Doom Metal), apostando em viradas geniais entrando em novas vaibes, descartando qualquer simplicidade ao estilo “verso/refrão/verso”; é como se estivessem misturando Black Sabbath (1970), Sabbath Bloddy Sabbath (1973) e mais alguma passagem da ampla carreira. Não soa como o Black Sabbath fazendo cover (ou reciclagem, talvez) de si próprio, mas sim o Black Sabbath buscando a sonoridade que possuía na época de Ozzy.

O que ajudou bastante foi a mão de Rick Rubin, que produziu o material. Se o toque de Rubin resultou em diversas negatividades em trabalhos como Death Magnetic (2009), do Metallica, desviando uma banda que buscava a sua essência (e convenhamos, uma banda perdida há vários anos em relação a novos materiais, o que não ajuda muito as coisas), com Black Sabbath o homem deu um toque à mais; os riffs de Iommy estão aí, bem como a inconfundível voz sombria de Ozzy e o contra-baixo gritante de Geezer Butler, e a mão de Rubin soa como um tempero à mais – casou de forma perfeita com a sonoridade do grupo. É possível sentir o peso de cada instrumento; prova disso é a faixa “God is Dead?”, em que o ouvinte certamente se pegará fazendo um air bass ao invés de realizar o clássico air guitar.

13 é muito sólido, único. Não poderia ter sido feito lá nos anos setenta, apesar de poder ser inserido facilmente entre eles – e provavelmente o será, como já foi dito -; é possível notar que 13 foi um álbum que somente o tempo poderia oferecer, como um bom vinho. E o álbum encerra com os sinos badalando, como a primeira faixa do debut se inicia. Seria Rubin apostando em um ciclo encerrado (tendo em vista que a ideia de inserir esse elemento ao final foi dele)? Sim, claro. Mas tomara que ele esteja equivocado quanto a isso, e que o Black Sabbath nos ofereça mais e mais, e com Bill Ward no seu devido lugar (que foi substituído com competência por Brad Wilk em 13, mas nada perto do que Ward fez no passado).

Victor Ramos

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Azul Limão – Vingança (1986)

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Azul Limão foi uma das primeiras bandas do puro Heavy Metal do Brasil; sim, puro Heavy Metal: o “gênero” em sua forma clássica – ou melhor: diretamente do desenvolvimento que a NWOBHM trouxe. É notável a influencia de bandas como Judas Priest e Iron Maiden, além de certo cunho social mais voltado ao Thrash Metal, que estava estourando no Brasil. Porém, por mais que exista certo foco social no álbum (como quase todo bom álbum de Metal), Vingança (o primeiro álbum da banda) é a síntese musical dos caras, que exalam amor pelo Metal (amor que pode ser testemunhado com maior força na memorável “Satã Clama Metal”, que reúne todo o clichê que o universo do Rock desenvolveu sob a leiga visão popular). Outro fator de destaque da banda, é que todas as músicas são cantadas em português; um desafio que eles pegaram com maestria e transformaram em um material de puro ouro, nada devendo a clássicos cantados em inglês.

Vingança é, do início ao fim, muito sólido. Poucos hoje conhecem, e o que resta é o título de “Cult” – dado ao fiel nicho underground apreciador do estilo; e aos que descobriram essa pérola após tempos sem ter a ideia de que essa banda existia, só resta o pensamento de: “Meu Deus… Como eu não descobri isso antes?”

É lindo. Um originalidade praticamente impecável somada a uma ousadia que faz parte do universo que permeia esse tipo de música.

Um dos grandes clássicos da cena nacional.

Victor Ramos

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Megadeth – Super Collider (2013)

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É interessante notar que o Megadeth conseguiu reencontrar a sua identidade sonora de forma bastante forte após o fraco The World Needs a Hero (2001), que soa mais como uma confusão criativa que como um “retorno às origens”; acontece que desde The System Has Failed (2004) a banda não errou a mão, a cada álbum olhando para um novo futuro – algo de se admirar em uma banda com vários anos de estrada. E Super Collider (2013) vem para reafirmar o posto que a banda conquistou (esta que encontra-se em um ótimo momento), sem medo de ousar e fazer escolhas claramente positivas.

O seu antecessor, Th1rt3en (2011), foi um bom trabalho, mas com claras fraquezas (como o fato de ser uma sombra do ótimo Endgame, de 2009) que não o permitiam ir além. E se Endgame foi forte ao fixar o contemporâneo Thrash Metal do Megadeth (fazendo uma busca principalmente no passado para construir o presente), Super Collider fixa um Megadeth isento de rótulos, mas sem nunca abandonar a sua identidade sonora e sempre respeitando o belo trabalho que o grupo vem fazendo; ou seja, fixa um Megadeth contemporâneo, e qualquer coisa saída daí é apenas consequência do talento dos caras – passeando pelo Heavy e Thrash Metal, além de flertar com o Hard Rock, sempre com lucidez.

Mas é claro, o fato de Super Collider ser moderno não significa que é um álbum cheio de frescuras; o ouvinte, ao ter contato com o trabalho, não terá dúvidas de que este é um autêntico álbum de Metal, dotado de peso natural que faz justiça à maturidade dos integrantes da banda – com o maior destaque de todos para Dave Mustaine, claro.

Todas as faixas são boas, apesar de duas em especial soarem fracas em comparação ao resultado final do conjunto total: “Built for War” e “The Blackest Crow”. No conceito de vários, a faixa-título também entraria na fila; mas se apreciada com atenção em contra-peso com o lado mais pesado do álbum, ela soa como uma peça fundamental em relação ao outro lado da complexidade musical (já que trata-se de uma canção simples e bastante memorável), como se fosse a trilha sonora para quem quiser se esquecer dos problemas mundanos e cair na estrada sem rumo; mas os fãs mais tradicionais podem ficar aliviados: a canção Super Collider não é tida como o tema geral desta obra. O álbum soa pesado, relevante e importante. Importante porque, como já foi dito, Super Collider reafirma a atual fase do Megadeth, capaz de agradar a fãs antigos e conquistar novos.

Victor Ramos

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Black Sabbath – Born Again (1983)

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Provavelmente o mais subestimado álbum do Black Sabbath, e também o mais interessante da carreira do grupo (isso envolvendo as histórias por trás dos bastidores), Born Again (1983) tem um sopro forte de presença. Isso porque as novidades aqui não param, e quase todas elas vêm de Ian Gillian, o “eterno” vocalista do Deep Purple. Sim, Ian Gillian, que veio como o terceiro vocalista da história do Black Sabbath, entrando após a saída do sempre excelente Ronnie James Dio. Born Again é um álbum energético, diversificado e evoluído; tem todas as características intrínsecas do grupo, mas sem prender-se ao passado. De Ian Gillian podemos notar os sempre excelentes vocais afinadíssimos, além de certa pegada oriunda do Deep Purple.

Born Again soa como a separação de dois mundos sob várias interpretações: o bem e o mal; Deep Purple e Black Sabbath; etc. Como sempre, Iommy esbanja o seu talento como a máquina de riffs que ele sempre foi, além de Geezer Butler, um baixista em um milhão, marcando a sua presença extremamente notável; a parte instrumental revela um tom maléfico, algo típico da música sabbathiana, em contrapeso com o lado até elegante de Gillian. Mas não existe apenas o lado da porrada; há espaço até mesmo para uma baladinha, a que dá o título do álbum: Born Again.

Esse álbum pode não ser tão sólido quanto a fase inicial com Dio, ou a fase com Ozzy; mas é repleto de peso e tem o seu destaque envelhecendo como um bom vinho.

Victor Ramos

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